A aeronave do acervo tem uma história que pode ser reconstruída apenas à partir da sua aquisição pelo piloto, entusiasta de aviação e primoroso restaurador de aeronaves Lúcio Sallowicz, num trabalho feito à partir do que restava do Taylorcraft BF-65 original, o exemplar de C/n 3379, produzido em 1941, e com a matrícula brasileira PP-TPH, constando como seu primeiro proprietário Luiz Siqueira Matheus, de Cafelândia (SP). Entretanto, o trabalho de reconstrução foi tão intenso e abrangente que não havia como registrar a aeronave pelo fabricante original, a Taylorcraft, sendo então necessário que fosse totalmente recertificado, daí o seu registro na ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil) ser apenas à partir dessa reconstrução, e por este mesmo motivo, o aparelho constar no RAB (Registro Aeronáutico Brasileiro) como sendo de fabricação do próprio Lúcio Sallowicz, com número de fabricação “BPF 001”, e do modelo “BPF”.
E aqui é obrigatório que se fale um pouco de Lúcio Sallowicz.
Empresário e piloto, Sallowicz era um apaixonado por aviação e sua história de longa data, e nos anos 90, fez parte de uma hoje extinta “confraria” de amantes de aeronaves antigas, que tinha por ninho o chamado Condomínio Aeronáutico Vale Eldorado, em Bragança Paulista (SP), que foi o primeiro de seu tipo a ganhar notoriedade no Brasil, e desde então vem inspirando diversos outros, incluindo o Céu Azul, onde hoje se encontra o Vintage Hangar. Lúcio Sallowicz foi um dos primeiros a se mudar para o condomínio, construindo uma casa-hangar, que inclusive serviria de modelo para muitas outras que viriam depois, não apenas ali, mas em outros condomínios similares pelo Brasil todo.
Além dele, se reuniam (e alguns, moravam) no Vale Eldorado, outras personalidades que, como ele, marcaram a aviação brasileira leve, como o renomado piloto e autor de testes de aviões na imprensa, Fernando de Almeida; o conhecido piloto e artista de aviation-art, Mauro José de Godói Moreira, e o empreendedor e piloto Luís Sérgio Fernandes Franco, entre tantos outros. E dessas reuniões nasceu uma associação de cunho até então inédito no Brasil, a ABAAC (Associação Brasileira de Aeronaves Antigas e Clássicas), que além de fomentar a recuperação de aeronaves históricas e batalhar frente às autoridades pela flexibilização das regras referentes à estas, também produzia um informativo dirigido aos associados, chamado “O Biplano”. Neste, além das informações da associação, curiosidades da aviação e outros itens, também se publicavam notícias da “descoberta” de aeronaves históricas, geralmente em estado de abandono, pelo Brasil afora – e foi assim que Sallowicz chegou ao que restava do Taylorcraft BF-65, de C/n 3379, e matrícula brasileira PP-TPH. Infelizmente, hoje, com o falecimento de muitos destes apaixonados “ativistas”, a ABAAC não está mais ativa.
No cuidadoso e demorado trabalho de reconstrução feito por Sallowicz, entretanto, acabou sendo necessária a mudança da motorização. Assim, o motor Franklin 4AC-176-B2, de 65hp, deu lugar a um Continental O-300A, de 145hp – a mesma motorização do Taylorcraft 15 de 1950, uma versão melhorada, de quatro lugares, do Taylorcraft BC. E os trabalhos enfim foram concluídos no início de 1999, quando a aeronave foi recertificada e incluída no RAB em 22 de fevereiro de 1999, recebendo a matrícula que ostenta hoje: PP-XLS. E a aeronave permaneceria com Sallowicz por mais de 15 anos, só sendo vendida por ele em 18 de junho de 2015 (conforme registro de transferência de propriedade no RAB, datado de 4 de agosto do mesmo ano) para Lucas Bulhões Bonventi, de Bragança Paulista (SP). E este, por sua vez, vendeu o PP-XLS cerca de dois anos depois, em 8 de agosto de 2017 (registro no RAB de 30 de agosto do mesmo ano), para Lule Participações e Empreendimentos Ltda – de fato, para os dois filhos de Lúcio Sallowicz – Lucio Sallowicz Filho e Leandro Sallowicz, os dois sócios-administradores da empresa.
E foram estes, com a morte do pai, no primeiro semestre de 2019, que venderam a aeronave, conforme registrado no RAB em 5 de novembro de 2019 (diante de um recibo de venda datado de 17 de outubro do mesmo ano), para a AB Administração de Bens Negócios e Participações Ltda, de Joinville (SC), passando então a integrar o acervo do Vintage Hangar.








