A origem desta aeronave, de certa forma, é um antigo Stinson 108-3 Voyager, matriculado PP-DUC, fabricado em 1948. Em 2010, o empresário e piloto catarinense Eddy Edgard Eipper negociou o restauro desse Voyager, com seu amigo de longa data, o piloto Rodrigo Damboriarena, considerado um dos melhores e restauradores aeronáuticos ativos no Brasil. Entretanto, o trabalho de restauro acabou se transformando num orojeto de construção de uma réplica do Stinson 108-3 Voyager, pois apesar de toda a sua expertise e experiência, Damboriarena não teve como restaurar ou recuperar o PP-DUC, pois o mesmo já não existia como uma aeronave em si. De fato, foram apenas partes dessa aeronave (notadamente, a estrutura da fuselagem, e as asas), já sucateada, que foram obtidas por Damboriarena através de Conrado Wahl, da Wahl Aeropeças Ltda., de Campinas (SP).
Daí em diante, o restaurador iniciou um trabalho “a la Indiana Jones”, pelos cantos do Brasil e até pelo Uruguai, em busca de partes, peças e componentes de um Voyager, além dos itens que teve de fazer e adquirir novos, de modo a conseguir obter um avião completo, possível de ser voado, e autorizado para tal pela Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC). E é por isso que, uma vez pronto, o avião teve de ser recertificado, daí o seu registro na ANAC ser apenas à partir dessa reconstrução, e por este mesmo motivo, o aparelho constar como sendo de fabricação do próprio Rodrigo Damboriarena, com número de fabricação “001”, e do modelo “Stinson-Eddy” (obviamente, em homenagem ao patrocinador do projeto, e subsequente proprietário da aeronave).
Além das partes estruturais de fuselagem e asas, obtidas com Wahl, as únicas partes que puderam ser obtidas completas foram o motor, um Franklin, incluindo até os magnetos, e a hélice (embora, ao final, tenha sido instalada uma hélice nova, Aeromatic, importada dos Estados Unidos). Isto, entretanto, não significa que a equipe não teve de desmontar o motor inteiro, verificar cada componente, fazer uma limpeza, banho químico, e tudo o mais necessário (incluindo um kit de pistões, originais, também importados dos Estados Unidos), o que demandou uma semana em oficina, em Jaraguá do Sul (SC). E o trabalho de construção de um Voyager “novo” foi sendo feito na oficina de Damboriarena, por ele e sua equipe, no aeródromo de Sant’Ana do Livramento (RS), sob a supervisão técnica do engenheiro aeronáutico Frederico Jorge Ritter, de Porto Alegre (RS). Foi de fato um trabalho primoroso, uma obra-prima de reconstrução aeronáutica, sem dever nada aos mais elevados critérios internacionais neste campo. Segundo Damboriarena, o maior desafio foi conseguir encontrar e reunir as pequenas peças e componentes (como roldanas, painel, e outros), e sobretudo todas as partes internas da aeronave (como o bagageiro, que é original, incluindo a sua lona), que de fato dariam alto padrão da reconstrução e colocariam o PP-ZGZ como uma réplica de padrão “museológico” do original.
Neste trabalho, um desafio também foram as partes que precisaram ser refeitas, algumas vezes sem que houvesse um gabarito original, como foi o caso dos assentos traseiros, que são feitos em lona, com estofamento por cima. Então, para se chegar na condição ideal de fábrica das dimensões dessas lonas, para darem a acomodação e o conforto previstos no projeto da Stinson, foi um trabalho que teve de ser feito por experimentação e acerto – “porque fizemos e aí víamos que a curva ficou muito alta, gerando desconforto ao se sentar, precisava abaixar. Isso deu um enorme trabalho, até acertarmos e ficar perfeito, como o original”. Outro desafio foram os amortecedores – um foi conseguido e pode ser recuperado para uso, mas outro teve de ser construído mesmo, replicado.
E com toda a pertinente documentação sendo enviada, conforme a lei, para a Divisão de Aviação Experimental da ANAC. E já na “reta final” do trabalho, como conta Damboriarena, aconteceu um daqueles episódios típicos da burocracia brasileira – a referida divisão da ANAC, até então sediada em São Paulo (SP), mudou-se para São José dos Campos (SP). E nesta mudança, toda a documentação do histórico do trabalho que vinha sendo feita se perdeu. Assim, quando Damboriarena enviou a solicitação para a certificação do Stinson-Eddy pronto, a reação do órgão regulador foi como se ele houvesse realizado um trabalho “fora das regras”, construindo a aeronave sem informar a ANAC e então solicitando a regularização desta com todo o trabalho “já pronto”. E o trabalho enfim ficou pronto no final de 2011. Então, quando o próprio Damboriarena estava de férias, em fevereiro de 2012, ele recebeu um comunicado que uma equipe de vistoria iria ver a aeronave num prazo de 24 horas. O resultado foi ele e o próprio Eddy Eipper, que estava em sua casa, em Corupá (SC), literalmente correrem com a pick-up deste até Sant’Ana do Livramento, onde chegaram ao mesmo tempo que o time de inspeção da ANAC! Por telefone, durante a viagem, Damboriarena já tinha avisado a sua equipe, e assim esta havia arrumado tudo na oficina, com toda a documentação, as partes que foram copiadas, moldes, blueprints, manuais, etc. “O hangar estava todo limpinho. O avião no meio, brilhando como um espelho”, relembra o restaurador, em depoimento ao jornalista e historiador Claudio Lucchesi. Então, ainda antes de entrarem com o pessoal da ANAC no hangar, Damboriarena explicou a estes o “mal entendido”, de que nunca houvera intenção de “construir o avião primeiro e depois abrir a documentação”, mostrando inclusive as cópias de toda a documentação que havia sido enviada para a ANAC, desde o início do projeto. E, após entrarem no hangar, e verem tudo, inclusive a qualidade do trabalho feito no Stinson-Eddy, tudo de fato se esclareceu, e o processo de certificação correu sem maiores percalços.
Assim, em 19 de setembro de 2012 foi incluído o registro legal do PP-ZGZ no RAB, com o proprietário constando como sendo Paul Eipper, filho de Eddy, por opção deste. E assim o aparelho foi “morar” no Condomínio Aeronáutico Céu Azul, em Araquari (SC), próximo de Corupá (onde morava Eddy Eipper) e de Joinville – e onde o Stinson-Eddy se tornou “vizinho” do Vintage Hangar do Dr. Alberto Bornschein.
E então, depois de ter voado muito e curtido muito o aparelho, Eipper concordou em vende-lo a Bornschein, o que foi feito em 17 de novembro de 2020, conforme consta no RAB.



