A aeronave do acervo tem uma história que pode ser reconstruída apenas à partir da sua aquisição pelo piloto, entusiasta de aviação e arquiteto José Luiz S. Perez, pois o aparelho foi por este encontrado e adquirido quando estava em Ubá (MG), já sem quaisquer condições de voo, em estado lastimável e sem registro ativo junto às autoridades. Foi necessário que fosse totalmente reconstruído, e recertificado, daí o seu registro na ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil) ser apenas à partir dessa reconstrução, e por este mesmo motivo, o aparelho constar como sendo de fabricação do próprio José Luiz S. Perez, com número de fabricação “01”, e do modelo “Aust Campeiro”. Segundo explicação do próprio Perez sobre esta designação de “modelo”, tratou-se de uma liberdade histórica aeronáutica, com fins legais, pois como o registro na ANAC exigia a definição de um “modelo” próprio, que não podia ser o de uma aeronave de produção em série (o que era o caso do exemplar em sua origem, um Taylorcraft BC-12D), foi criado por ele este modelo “Aust Campeiro” – que unia o “Aust” em referência ao Auster fabricado pela subsidiária da Taylorcraft no Reino Unido, sobretudo durante a Segunda Guerra Mundial, com o “Campeiro”, que era uma homenagem do proprietário ao Neiva XL-10 Campeiro, uma versão do Paulistinha desenvolvida no início dos anos 60, até estágio de protótipo, pela Indústria Aeronáutica Neiva, para a Força Aérea Brasileira, possuindo motor Avco Lycoming, de 150hp. A reconstrução foi acompanhada e atestada, para fins da recertificação, pelo Engenheiro Aeronáutico Reuel de Matos Oliveira, e foi feita nas oficinas de restauro do então Museu da TAM, em São Carlos (SP).
E aqui é interessante de se falar um pouco de Perez e de como ele chegou ao BC-12D em Ubá.
Arquiteto por profissão, Perez desde muito é um apaixonado por aviação e sua história, e nos anos 90, fez parte de uma hoje extinta “confraria” de amantes de aeronaves antigas, que tinha por ninho o chamado Condomínio Aeronáutico Vale Eldorado, em Bragança Paulista (SP), que foi o primeiro de seu tipo a ganhar notoriedade no Brasil, e desde então vem inspirando diversos outros, incluindo o Céu Azul, onde hoje se encontra o Vintage Hangar. Entre os amigos que se reuniam e, no caso de alguns, moravam no Vale Eldorado, estavam o renomado piloto e autor de testes de aviões na imprensa, Fernando de Almeida; o conhecido piloto e artista de aviation-art, Mauro José de Godói Moreira, e o empreendedor e piloto Luís Sérgio Fernandes Franco, entre tantos outros – incluindo, claro, o próprio Perez. E dessas reuniões nasceram duas associações, a ABRARTA (Associação Brasileira de Artistas em Arte Aeroespacial) e a ABAAC (Associação Brasileira de Aeronaves Antigas e Clássicas), sendo que esta última produzia um informativo dirigido aos associados, chamado “O Biplano”. Neste, além das informações da associação, curiosidades da aviação e outros itens, também se publicavam notícias da “descoberta” de aeronaves históricas, geralmente em estado de abandono, pelo Brasil afora – e foi assim que Perez tomou conhecimento do Taylorcraft em Ubá. Infelizmente, hoje, com o falecimento de muitos destes apaixonados “ativistas”, tanto a ABRARTA quanto a ABAAC não são mais ativas.
Mas, além do círculo de apaixonados em Bragança Paulista, Perez foi também um dos primeiros colaboradores voluntários no projeto de criação de um museu privado de aviação no Brasil, concebido pelos irmãos Rolim Adolfo Amaro (criador da TAM Linhas Aéreas) e João Francisco Amaro. Naquele início do ambicioso projeto, em meados da década de 90, o grupo de trabalho do futuro museu, liderado por João Amaro, ocupava apenas três salas do prédio-sede da TAM, no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, e o plano, desenhado por Rolim Amaro, era de que o museu seria construído na cidade de Americana (SP), junto ao aeroporto local, e Perez, como arquiteto, desenvolveu sem custos um projeto básico do prédio principal do museu, que teria o formato do avião pioneiro de Alberto Santos Dumont, o 14-Bis. Assim, a relação de Perez com o museu veio desde os princípios da concepção deste.
Mais tarde, com a aquisição das instalações em São Carlos (SP) para sediar o Centro Técnico e de Manutenção da TAM, decidiu-se alojar o museu, incluindo sua oficina de restauro, ali, favorecendo-se de uma ampla área já construída de estrutura industrial, que podia ser “convertida” sem grandes dificuldades nas instalações do museu, oferecendo como grande vantagem uma enorme área coberta e protegida para a exposição das aeronaves, e a vizinhança com as instalações técnicas da TAM, para possível suporte não apenas na conservação das aeronaves do museu, mas também nos trabalhos de restauro – cuja equipe era liderada pelo experiente Jorge Luís Stocco, piloto e (na época) o mais experiente restaurador de aeronaves no país.
Então, dada a amizade com o próprio João Amaro, com Stocco e toda a sua equipe, e seu longo envolvimento com todo o projeto do museu, Perez pode ter o trabalho de reconstrução do Taylorcraft realizado integralmente nas oficinas do museu em São Carlos, com a máxima dedicação da equipe de restauro, e assim se fez um trabalho primoroso na aeronave.
E, com este completado, o aparelho recebeu a matrícula PU-RYS, em 2004, oficializada em despacho datado de 26 de maio daquele ano. E assim, passou a estar novamente em condições legais de aeronavegabilidade perante as autoridades aeronáuticas do país. Por outro lado, até como uma forma de retribuição, por muito tempo em que o museu esteve aberto ao público, Perez deixou que o aparelho ficasse junto das aeronaves do museu, exposto ao público, embora fosse de sua propriedade e não da instituição.
Perez era completamente apaixonado pelo aparelho, mas com o avanço da idade comprometendo a segurança de continuar a pilotar, e sobretudo com o fechamento do museu em 2016, decorrente do processo de venda da companhia aérea TAM que gerou a atual LATAM, acabou vendendo o aparelho para Igor Bueno Carneiro Rodrigues, o que foi registrado como transferência de propriedade da aeronave no RAB (Registro Aeronáutico Brasileiro) em 27 de junho daquele mesmo ano de 2016. E foi este, por sua vez, que, conforme registrado no RAB em 15 de março de 2018, vendeu a aeronave para a AB Administração de Bens Negócios e Participações Ltda, de Joinville (SC), passando então a integrar o acervo do Vintage Hangar.









